10.8.09

MEMÓRIAS DA QUERMESSE

Eu não pretendia voltar ao assunto em respeito aos meus leitores de apetite mais afoite e a outros leitores demasiadamente adeptos a uma festança, porem, instado demasiadamente por uma centena de leitores (né Ana Lucia?), decidi voltar ao assunto e prestar meu sincero depoimento sobre a festança que participe no ultimo dia 1º. de Agosto no meu tradicional bairro do Bixiga. Então, vamos ao relato: EVENTO: Inauguração da 83ª. Festa de N. S. ACHIROPITTA, acontecida dia 1º. De Agosto de 2009. Conforme já narrado no texto anterior, euforicamente, me preparei para, voltar á festa depois de quase 50º anos de ausência. 50 anos? Nossa como passa o tempo e a gente nem percebe, me lembro que a ultima festa em que eu participei foi por volta de 1959, quando eu, solteirinho das silva, membro ativo dos Duques de Piu-Piu, após a sessão de domingo no Cine Rex, arrematei no leilão beneficente, em plena Rua 13 de Maio, 1 garrafa de vinho Sangue de Boi que foi imediatamente aberta e consumida. Então, como Bixiguento orgulhoso, veterano das quermesses da Igreja, fui comandando a nossa comitiva composta de 4 pessoas (eu, a Soninha, minha cunhada Claudia e a Kátia, filha da Soninha e, lógico, minha filha assumida). Fomos no carro luxento da Claudia. Ela ao volante e eu, como cicerone assumido, pensando conhecer tudo do que resta ainda do velho Bixiga. Quebrei a cara! A festa que me chegava à memória acontecia na Rua 13 de Maio entre as quadras da Rua Manoel Dutra / Rua Conselheiro Carrão, então tentei chegar perto da festa pela rua Dr. Luiz Barreto. Não deu, a muvuca estava por todos os lados, Dei a ordem de retorno para buscar nova alternativa, meu Deus que coisa horrível, todas as ruas estavam na contramão. Sofrendo a maior gozação das lindas senhoras que me acompanhavam, fui obrigado a fazer um tour bem mais longo, retornamos pela rua Marques Leão, entramos na rua Dr. Seng, Rua Silvia, Rua Itapeva, Rua Rocha (novamente) Praça 14 Bis e, finalmente, Rua Manoel Dutra, até um estacionamento mais próximo da Rua 13 de Maio. Carro estacionado nos dirigimos até a Cantina Oficial. A missão, dito assim parecia simples, o difícil foi vencer a multidão que imobilizava o transito na extensão da festa. Era um mar de gente impedindo o avanço de quem quer que fosse. Eu, coração apertadinho, olhava no rosto de todos na tentativa de achar velhos bixiguenses, amigos ou conhecidos de outrora e nada! Será que só eu havia subsistido à força do tempo? Depois de vários esbarrões, de vencer a massa humana que em fila ordenada aguardava a vez de comprar uma “fogazza”, chegamos ao salão principal ao lado da Igreja. Encontramos a amiga da Claudia que estava nos aguardando com os convites e entramos na Cantina. A festa era típica da italianada alegre que falava alto e gesticulava falando. Senti-me em casa mesmo não encontrando caras conhecidas. Achamos nossa mesa, depois de nos acomodarmos partimos para os finalmente. Claudia e Kátia foram para a fila da “bóia” no intuito de aliviar este convalescente da longa espera. Quando, finalmente, elas estavam próximas da grande mesa, nos avisaram e fomos eu e a Soninha para a fila também. A mesa posta para que os convivas se servissem estava, realmente, apetitosa. Meus olhos, famintos, pousaram sobre os imensos pratos de ante-pastos à base de berinjela (morinhana para os oriundis como eu) preparadas de várias formas. Servi-me de todas as variedades, pimentões também foram para o prato, as maioneses e saladas verdes foram por mim dispensadas, cheguei, então, na parte dos queijos e frios, Salaminho, queijos parmesão e provolone, eu apanhei de montão. Para concluir a mesa me servi de azeitonas pretas enormes e divinamente saborosas. Cheguei em frente a mamma que servia o pão italiano e as polentas fritas tive que voltar para mesa sem a polenta. Não venciam fritar os pedaços. Enfim, pratos astronomicamente recheados, fomos para nossa mesa e, nos fartamos de comer na companhia de 2 garrafas de Lambrusco geladerrimo, alguns refrigerantes e águas. Ah! as massas eram servidas diretamente nas mesas e com minha gula já mais do que saciada, abri mão de experimentar os iguarias. A alegria pairava no ar. A “Banda Felice Itália” enchia o ambiente com as canções napolitanas de todos os tempos, os grandes sucessos de Rita Pavone, Endrigo, e outros tantos cantantes italianos e de Tarantelas animadíssimas, nas lindas vozes de Paulo Walter Spartani e Ingrid Nagçieri. A pista de danças, totalmente lotada por alegres bailarinos que tinham ido para realmente se divertirem, pululava e palpitava acompanhada de inúmeros pandeirinhos acionados por todos os demais que não haviam conseguido chegar até a pista, mas queriam entrar no clima e participar das danças e da alegria. No intervalo das musicas, o Mestre de Cerimônias promovia os leilões das prendas e brindes oferecidos por cantinas do Bixiga (pizzas, pães italianos, pernas de cabrito e outros que tais) ou por patrocinadores da festança. Os convivas presentes, à certa altura da festa, foram agraciados por um show musical nas vozes dos 3 Tenores Brasileiros, Antonio Guido (Nino) Valsani. Armando Valsani e Francisco Romanelli, fizeram um espetáculo digno da festa. Vozes lindíssimas e musicas Maravilhosas. Minha cunhada Claudia, satisfeitíssima por ter ouvido e dançado a musica “nhamo, nhamo, nhamo” (para ela) e “Funiculi Funicolá” para o resto do mundo, por volta da ½, com medo de se transformar em abobora, deu o comando de retirada. Por estarmos de carona e dependendo dela concordamos e fomos embora. Foi maravilhosa a festa e meu retorno a ela delicioso e surpreendente. Recomendo a todos para que façam uma forcinha e passem uns instantes felizes naquele ambiente. Vale a pena!

28.7.09

NOVAS MEMÓRIAS ANTIGAS Nestes tempos de repouso total, a única coisa que tem poder e direito de agitar-se é o pensamento e, consequentemente, a memória. Eles, se já não paravam quando o corpo se agitava, agora estão mais rápidos, lépidos e soltos. Outro dia minha companheira chegou me dando um ultimato: “trata de sarar logo, minha irmão consegui quatro convites para a inauguração da festa de N. S. Achiropitta na barraca principal e, eu quero ir com você!”. Imaginem meu desespero só de pensar que a oportunidade única poderia ser desperdiçada. Com os pensamentos absortos na festa a memória tomou conta do espaço e voltei, de pronto, ao passado quando ainda na minha juventude, o ponto de parida para qualquer “programa” nas noites do fim de semana era a quermesse da Igreja. Lembrei, inclusive, da festa que era realizada antes da inauguração da quermesse, a Procissão de N. S. da Achiropitta. Era algo de maravilhoso. Meus se fecharam e as imaginas voltaram como por encanto. Comecei a visualizar a saída da Procissão, o povo formando alas para acompanhar a imagem da padroeira do bairro que saia em um andor maravilhosamente ornado com flores e muitas cores para uma peregrinação pelas ruas do meu Bixiga. O povo do bairro em perfeita miscigenação ítalo-afro-baziliana, com alguns pitacos lusitanos e outros das várias etnias que haviam adotado o bairro como sua pátria, se não ia para as calçadas engrossar as alas da procissão, ficava em casa, assistindo das janelas e dos balões de suas residências a passagem do cortejo. Para alegrar a Santa, no para-peito das janelas e nas grades dos balcões e varandas, eram estendidas colchas, mantas e toalhas multicoloridas, de vários motivos e acesas velas votivas. Por deferimento e também por interesse pecuniário (sobrevivência da paróquia), o vigário promovia a parada do andor na frente das casas das famílias mais abastadas que, prestigiadas não mediam esforços e depois das preces e homenagens à Santa, faziam generosos donativos. Donativo aceito, o cortejo continuava em busca de outras famílias e, lógico, de outros donativos até qu8e o circuito se completasse e a Santa voltasse à sua Paróquia. Finda a procissão, era promovida a cerimônia final com uma Reza muito concorrida pelos fiéis. Depois da cerimônia religiosa, o vigário fazia uma pequena preleção agradecendo a todos pelo sucesso da homenagem e convidava o povo a se dirigir à quermesse e se divertir com respeito e consciência. Aí a festa tinha início. Antigamente as barraquinhas eram montadas nas calçadas da Rua 13 de Maio no quarteirão compreendido entre as Ruas São Vicente e Conselheiro Carrão. Eram barracas de roleta, pescaria, bolo nas latas, e outras que tais, distribuindo prendas. A maioria das prendas havia sido coletada em doações dos próprios fieis que, na festa endoideciam para ganhar uma delas. Havia a barraca do Leilão onde pratos de iguaria, litros de bebidas mais sofisticadas eram leiloados e chegavam a ser arrematados por valores significativos. Hoje a quermesse se transformou. Ganhou infra-estrutura, embora ainda ocupe um espaço da Rua 13 de Maio, já tem espaço próprio onde as “mammas” fazem suas massas, suas porpetas, suas bracciolas e servem ao populacho que se empanturra com tais delicias. Para falar com franqueza, não sei se gosto mais da antiga quermesse ou da festa atual. Sei apenas que sábado próximo irei usufruir do convite que foi conseguido por minha cunhada e voltarão Bixiga depois do susto que tomei. Aiiiii como eu sofro!!!!!!

23.7.09

OUTRAS
MEMORIAS
PIREPAQUIANAS
Quando somos abruptamente assaltados por um mal súbito e vai parar internado em um nosocômio, tive a certeza ao vivo e a cores recentemente, o amor próprio, a vergonha, a pudicícia vão para o vinagre.
Você, ao retomar a consciência em cima de uma cama hospitalar, verá que todos os valores alimentados por anos, ficaram totalmente invalidados.
Eu acordei na manhã do dia 19 pp, sem minhas roupas, trajando apenas um camisolão que, apesar de poder ser fechado na parte traseira, fora mantido aberto. Lembrei-me do ocorrido na tarde do dia anterior e justifiquei meu estado em virtude da incontinência urinaria de que fui acometido enquanto aguardava os cuidados médicos sentado em um banco incomodo do PS.
Naquele inusitado uniforme fui mantido por uma semana inteirinha. Banhos eu tomava, inicialmente, na própria cama, dados por uma das enfermeiras. Aqui devo abrir um parêntese para homenagear os “anjos hospitalares”, as enfermeiras. Elas cuidam de você com o mesmo carinho e afeto que uma mãe cuida de seus filhos.
Foram elas as causadoras da minha perda da vergonha, da queda do meu amor próprio quando me despiram e me banharam e quando me trocavam as fraldas geriátricas.
Faziam tudo com tanta naturalidade que depois da surpresa do primeiro dia, passei a aceitar os procedimentos com naturalidade.
Quem, como eu, fica internado na enfermaria de um hospital publico, rodeado por mais sete outros internados, não pode se queixar da falta distração. Os companheiros de infortúnio, por si só, podem ser motivo de muitas risadas.
Eu, por exemplo, quando me dei conta da situação, percebi que estava rodeado por pessoas bastante interessantes. Nas camas da frente estavam quatro doentes, contando-os da minha esquerda para a direita, tínhamos um com uma figura bastante acaipirada (não quero dizer boba), fala mansa, modos calmos, mas de grande perspicácia. Em virtude do diabetes, estava cego de uma vista e a caminho de perder a outra. Resignado com sua situação, estava chateado por ter sido apartado de sua família e da criação (criava galinhas) sem ter uma só réstia de esperança para a cura.
Na minha frente, um senhorzinho de cabeça encarquilhada, que depois fiquei sabendo ser violeiro e animador de quermesses e rodeios. Mesmo com a glicemia em alta, era um faminto contumaz, devorava tudo que lhe era servido e, ainda não satisfeito, percorria as bandejas dos demais companheiros de quarto para recolher pães e frutas dispensadas, guardando-as para as horas de intervalo entre as refeições.
Os dois outros internados à minha frente, eram pacientes renais que eram submetidos, todas as notes a sessões de diálise. Dormiam muito durante o dia.
Depois que o caipirão e o violeiro tiveram alta, quase na freta final de minha estadia, foram internados um rapaz negro de muita solicitude, que ali estava para exames pós-cirurgia de extração de um carcinoma bem sucedida nove anos atrás e que agora, parece, tentava retornar.
Outro que foi internado em nosso mundinho foi um senhor que ali estava para avaliação de uma operação cardíaca que, parece, estava querendo descambar. Este senhor, já no primeiro dia, logo na chegada, devidamente acompanhado por sua esposa, ao desfazer a mala, retirou dela um par de chinelos um tanto espalhafatosos na cor verde, olhou frontalmente para mulher e disse: você está querendo que eu use esses chinelos? Se eu sair com eles aqui no corredor, vou ser cantado por médicos, enfermeiros e todos os pacientes. Tô fora!”
Assim, olhando e tentando analisar meus companheiros, os dias passavam mais rápidos e eu me distraia.
Os companheiros deitados do meu lado deverão ser descritos com outras memórias.

17.7.09

MEMORIAS PIREPAQUEANAS
Juro por tudo quanto é sagrado que nunca pensei um dia estar escrevendo memórias deste naipe. A gente, com o passar dos anos, se acha imune a qualquer tipo de ocorrência maléfica da saúde. Consideramos-nos verdadeiros predestinados à vida eterna. De repente, não mais que de repente, o inevitável acontece. Então percebemos o quão frágil somos perante os desígnios do destino. Hoje eu sei que é assim. Dia 18 de junho PP, uma quinta-feira sem maiores predicados a não ser da maravilha de ser véspera de sexta-feira o final de mais uma semana. Estava eu na empresa a quem presto trabalhos profissionais. Do nada comecei a sentir tremores de frio. Pensando estar em estado gripal, aguardei para ver se uma melhora acontecia. Nada, os tremores e o mal estar continuavam. Resolvi, então, contra minha vontade, ir embora para, já em casa, medicar-me melhor e me restabelecer. Comuniquei aos demais a minha decisão e sai. O trajeto entre a empresa e a estação do trem em Ferraz de Vasconcelos é pequeno, mas, não me animei em percorrê-lo como das outras vezes, solicitei que um taxi viesse me buscar. No trajeto dos trens até a Estação da Luz pareceu que eu já havia me recuperado um pouco. Desci do trem, dei uns dois passos e por uma fração de segundos o mundo saiu de baixo dos meus pés. Cai sentado. Recobrei minha consciência e me vi amparado por seguranças da CPTM que assistindo meu tombo concluíram que eu não estava em condições físicas ideais, ma ajudaram a sentar numa cadeira de rodas e me informaram que estavam me levando para o PS da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e assim o fizeram. Ainda meio desnorteado me vi entrando no OS, respondendo perguntas aos enfermeiros e médicos que vieram em meu socorro. Meu celular estava no bolso e usei-o para chamar minha companheira e avisá-la do ocorrido depois, bem depois não me lembro de mais nada. Só me lembro do desespero da Sonia quando entrou no OS e me localizou. Eu estava em condições nada agradáveis, principalmente para ela que sempre me havia visto ereto, forte, alegre. Ali naquele banco do PS eu estava largado, abatido e todo urinado. O adiantado da hora, já havia sem passado umas quatro horas da ocorrência, e o meu estado não permitiu que ela tivesse qualquer duvida e, imediatamente, chamou meu filho que, por sua vez, convocou as três irmãs e foram ao nosso encontro. Minha filha Rossana é instrumentadora médica e graças a isso reconheceu depois de algum tempo um médico que ela tinha conhecido por conta de seu trabalho profissional. Aí, então, as portas puderam ser abertas e eu fui internado para averiguação. Na averiguação que, diga-se de passagem, foi de excelente qualidade já foi confirmado que eu havia sofrido um AVC de pequenas proporções, no cerebelo. Sequelas não foram constatadas, mas eu precisava ficar internado em observação. A Santa Casa de Misericórdia da São Paulo é uma instituição escola e o corpo médico de estudantes e professores é de excelente qualidade e a equipe que recebeu meu caso era composta de profissionais dedicados e de alta capacidade. Quando o mal se instala, podem crer, não se instala sozinho. No meu caso, alem do problema do AVC eu fui atacado por uma infecção bacteriana na perna esquerda que deu muito mais trabalho e sofrimento do que o próprio AVC. Minha perna ficou inteiramente coberta de bolhas que depois da minha alta hospitalar vieram a estourar e se transformaram em pústulas enormes prejudicadas, ainda, pelo meu diabetes. Hoje, passados quase 30 dias do ocorrido, ainda me mantenho sob repouso total buscando a cicatrização total das feridas originadas do ataque bacteriano e, para não me fazer esquecer o susto, tenho uma enorme e constante dor na bunda, principalmente na banda da direita, resquício da queda provocada pelo AVC e que espero, depois de curado dos outros males, uma fisioterapia poderá resolver. Outras memórias deste piripaque serão relatadas nos próximos dias, essas, porém mais engraçadas. Aguardem!

17.6.09

CONSIDERAÇÕES REAIS

Por diversas vezes o tema já veio à baila, por diversas vezes driblei-o na esperança de poder safar-me sem maiores considerações. A historia do virtual e do real me incomodava. Dias atrás, numa daquelas tardes modorrentas de sábado, sem grandes obrigações a não ser o de manter acesa a conversa com minha companheira eis que o tema volta a pairar sobre nossas cabeças. Então, sem grandes preparos, começamos a divagar sobre o assunto. Ela, com sua racionalidade e cultura, eu com minha gaiatice e espirituosidade. Foram momentos de conversa muito séria entrecortada, varias vezes, por uma piada ocasional (posso perder o amigo, a parada ou qualquer outra coisa, mas não perco a piada no momento certo) seguida de um olhar circunspeto e, às vezes, de um pequeno sorriso conciliador. Nessa divagação, o real e o virtual foram devidamente comentados, discutidos, dissecados e, ao final, concluímos, ou melhor, ela concluiu e eu aceitei, que virtual é, tão somente, o meio utilizado para que uma pessoa ou coisa pratique um ato. Como exemplo, foi-me dada a situação muito em voga na Internet, ou melhor, ba famosa blogsfera, os participantes são reais e se comunicam através do meio virtual que é um blog, um comentário, um e-mail etc etc e tal, e cousa e lousa e maripousa, como costuma apregoar um grande jornalista desta minha sampa querida. Justos e acertados, eu e minha amada, considerando esgotado o assunto, nos preocupamos em preparamo-nos para o baile em que logo mais estaríamos presentes. Hoje, sozinho, depois de ler duas noticias que muito me entristeceram,, o suicídio da minha musa e guru, a Loba e a decisão do Zeca em fechar as suas janelas, percebi que o assunto da outro dia não havia sido em vão, tinha isso sim, sido uma premonição dos fatos. Aprofundei-me nos pontos então discutidos e concordei ainda mais com o resultado final da discussão. Some a Loba do mundo blogueiro. Some a personagem virtual criada por um ser real. Some a musa safada e intrigante, mas continua entre nos a mulher inteligente, culta, vivida e cheia de vida que criou e quase deu vida real à personagem. Euza, na sua real sabedoria, dará um tempo para que as cinzas da Loba esfriem e voltara ao nosso convívio, com outra roupagem, e será a mesma amiga dedicada de todos os tempos, podendo, inclusive, reativar o AQO de 2009 com o nome de “AO da EUZA”. Fiquei feliz! Com as janelas do meu amigaço ZECA, eu sei que mesmo entreabertas, ele continuara conosco. Está dando um tempo para melhor enquadrar sua vida profissional e familiar, depois, bem depois voltara a nos brindar com seus textos poéticos, intrigantes e tremendamente sábios. Foi muito bom ter discutido sobre o assunto virtual/real, hoje estou mais tranqüilo com as respostas obtidas na vida real. Em resumo, este humilde rabiscador de textos, continuará neste blog rabiscando, indo a outros blogs amigos para ler e, mais do que nunca, aguardando o retorno dos amigos ausentes.

24.5.09

PERDI A LIBERDADE NA VESPERA DA INDEPENDÊNCIA
Eu, homem vivido, já encaminhado para a reta final da estrada da vida, Ciente e consciente que meu caminho estava fadado à solidão (os bailes que freqüentava eram apenas pontos de reunião como amigos, terminados, eu me apegava à solidão e com ela ia embora), um dia, sem mais nem menos, vi toda a estória sofrer uma forte reviravolta. Hoje, por estar num fim de semana apenas e tão somente acompanhado por “dona solidão” chegou a hora de dissertar sobre o assunto e divagar sobre o tema. Então, divaguemos... Um dia, depois de ver naufragar um casamento de 32 anos até então normal, como todas as uniões estáveis, com altos e baixos, tristezas e alegrias. De repente, o caldo azedou de vez e a separação foi inevitável. Filhos e netos entenderam a situação e deram total apoio. O ruim foi eu me adaptar à nova vida. De boêmio inveterado na minha solteirice, havia me transformado em um homem caseiro, vivendo exclusivamente para o trabalho e para a família. Sentia-me um peixe fora d’água. A vida parecia ter perdido a graça. O trabalho passou a ser apenas uma obrigação. Divertimento, nenhum.
Minha vida havia se transformado na rotina casa/trabalho/casa, computador/cama. Tédio absoluto.
Essa fase durou apenas e tão somente 9 arrastados anos. O desprazer de sair sozinho à busca de diversão ou entretenimento não me permitia ousados arroubos. Eis que, senão, quando, numa agradável noite de sábado, tomei uma resolução. Sairia sim. Iria buscar um lugar na noite e voltar a viver. Sai, fui a um baile, dancei, percebi que o dançarino de antanho ainda existia, que minhas pernas ainda conseguiam florear os passos ao ritmo dos boleros, sambas, cha-cha-chás e outros que tais. Pronto, me transformei, ou melhor, me reinaugurei. Os bailes passaram a ser, novamente, o motivo das minhas alegrias. Com as danças vieram os conhecimentos e as amizades. Cônscio de que adentrado nos anos eu deveria me preocupar em viver a vida e não ter como finalidade a busca de uma companheira para vivê-la comigo, eu seguia, agora bem mais feliz, a minha trajetória. Trabalho, às vezes escasso, dança constante e o velho habito de rabiscar crônicas, poesias e memórias, se tornaram as rotinas da minha existência por mais de 3 anos. Aliás, essa minha mania de rabiscador me fez descrever em alguns textos, os salões onde eu trançava as pernas e suava a camisa. Certo dia, recebo um comentário sobre um desses textos onde a comentarista confessava ter se interessado em conhecer o salão do Ocean Praia Club onde se realiza, todos os sábados, o baile mais tradicional da Praia Grande. Explicou que fazia parte de um grupo social que tinha como objetivo, proporcionar momentos de alegria e prazer aos seus componentes. Perguntou, afinal, se eu poderia lhe passar o endereço do salão para que, um dia, em uma descida à baixada ela pudesse ir conhecer o baile e decidir da viabilidade de marcar um evento com seu grupo naquele local.
Na minha condição consciente de cavalheiro, não só aceitei em passar-lhe o endereço como me prontifiquei a ciceronear uma visita dela ao clube.
Confesso que nada além do cavalheirismo me levava a essa oferta. Principalmente por que, como dançarino conceituado eu não me permitia dançar com uma dama que eu não tivesse, previamente, avaliado suas qualidades bailantes. Alem do que, conhecedor das conversas internéticas, eu tinha quase certeza absoluta que esse oferecimento não iria dar em nada e em pouco tempo cairia no esquecimento.
Surpresa, isso não aconteceu e, numa noite, ao me conectar à Internet abri uma mensagem que dizia:
“Em setembro, dia 6,por ser véspera de feriado e eu estar sem compromissos profissionais, estou disposta a aceitar o seu convite e conhecer o baile que tanto você exalta.”
Pronto, amaldiçoei minha cavalheirice, pensei em responder que por infelicidade estaria viajando na ocasião, mas novamente, imbuído da condição de cavalheiro e, por que não dizer, com uma pontinha de curiosidade, confirmei o convite e me coloquei à disposição para o trabalho de ciceroneamento.
A moça realmente apareceu, nosso encontro, marcado para a tarde do sábado no Shopping local, foi surpreendente para mim. O sorriso dela, até hoje lembrado, me cativou de imediato.
Apresentamos-nos, fomos saborear um sorvete que por sua própria confissão ela era apaixonada, e com todo o respeito cabível, a conduzi até meu apartamento para que pudesse se trocar e se aprontar para o baile.
Devo confessar que depois de marcado o encontro eu me condicionei a esquecer em casa o dançarino e ser apenas o Miguel, recebendo a visitante, dando-lhe a atenção merecida e até dançando com ela algumas seleções. Ah! Principalmente, jurei abrir mão de dançar com minhas damas constantes, para não constrange-la.
Foi exatamente assim que me comportei. Não posso negar que a alegria e suavidade dela aliviaram em muito aquilo que eu estava considerando uma penosa obrigação.
Já havia, nessa altura, convidado e ela aceitara, pernoitar em meu apartamento para que antes do seu retorno para casa, pudéssemos saborear um peixinho na praia.
Dançamos, e terminado o baile, voltamos para casa. O meu cavalheirismo novamente se fez presente. Ofereci minha cama à visitante que, prontamente aceitou. Fui dormir numa caminha de solteiro.
No dia seguinte acordamos, tomamos o café da manhã. Conversamos mais um pouco e depois nos dispusemos a passear pela praia em busca do tal peixinho. Fomos, passeamos, sentamos num quiosque e saboreamos umas pescadas deliciosas, devidamente umedecidas por grandes goles de cerveja gelada (por mim) e suco de laranja (por ela).
Alimentados, ela consultou o relógio e considerou chegada a hora da partida. Voltamos para casa, ela se aprontou para seguir viagem, na hora da despedida, os dois de pé, na sala, nos olhamos, nos abraçamos e...
Pronto, tive consciência que na noite anterior, eu havia, definitivamente, perdido a minha liberdade.
Hoje, 8 meses passados, nos preparamos para viver uma nova vida e ambicionada experiência, a Sonia está aprontando as malas para vir morar no litoral e eu, de malas prontas, espero a sua chegada para ir ter com ela e com ela viver uma vida eivada de carinhos e alegrias em baixo de um mesmo teto. Assim, termino este texto exaltando a noite de 6 de setembro de 2008, pois foi aí que eu PERDI A MINHA LIBERDADE, NA VESPERA DA INDEPENDENCIA.

15.5.09

MEMÓRIAS DE UM PREJUIZO 1968, a minha aliança já estava sendo usada na mão esquerda e o casal não mais morava no quarto da casa da minha mãe e sogra da minha esposa. Já estávamos residindo em um apartamento na Rua Maria José.
De resto as coisas continuavam as mesmas, eu sem emprego, vivendo de “bicos” e de um cachê como ator do Teatro Infantil de Nydia Licia, e a Da. Cida, emergindo de um aborto involuntário e, claro. Prestes a engravidar novamente.
Um dia, me levantei como de costume, e me aprontei para sair e batalhar por um emprego estável. Depois do banho separei o terno preto (terno do casório, em tropical inglês), a camisa branca, também do casório (volta ao mundo) e a gravata que combinava com a indumentária. Sapatos e meias preta também foram separados.
Devidamente vestido, sai de casa com a certeza de que na minha volta eu já estaria empregado.
Batalhei o dia inteiro, fiz diversas entrevistas e, pronto, um delas me pareceu a premiada. Os entrevistadores ficaram impressionados comigo e eu com eles.
Prometeram uma resposta definitiva em 24 horas pedindo que eu entrasse em contato no dia seguinte por telefone.
Cheguei em casa eufórico, beijei Da. Cida, disse a ela que estava praticamente empregado.
Depois de extravasar minha euforia, voltando ao normal, perguntei a ela o que iríamos jantar.
Um tanto quando estressada, ela me respondeu que por falta de grana, não havia saído para comprar nada e, assim, a janta do dia era “nada”.
Tentei me conformar, mas a fome de um dia inteiro corrido e sem qualquer alimento não deixou.
Na época, as casas de frango giratório para viagem eram novidades. Poucas haviam em Sampa, e uma delas estava recém inaugurada no Paraíso, quase em frente a Loja Sears, e já haviam de informado que era de excelente qualidade.
Não tive duvidas, falei para a dona da pensão, nada de pizza, hoje iremos comer um acepipe. Tirei a gravata e o paletó e sai, caminhando, até a loja do “Frango Americano”.
O trajeto até lá foi rápido, Rua Rui Barbosa, Rua Treze de Maio e pronto, já havia chegado.
Fiz a encomenda, um frango destrinchado, farofa e fritas.
Tudo pronto e embalado em sacolas de plástico. Paguei e sai de sacola nas mãos.
No intuito de não permitir que a comida esfriasse, acenei para um táxi, embarquei, dei o endereço do destino e me acomodei no banco traseiro, colocando a sacola no colo.
Pouco tempo depois, senti que o calo dos alimentos em cima da minha perna estava aumentando, mas como já estávamos chegando não me abalei muito.
Chegando em frente de casa, paguei o táxi e subi as escadas, antes de abrir a porta da frente, senti que alguma coisa caia ao chão, olhei e era o saquinho de farofa que havia passado pelo buraco que o calor do frango havia feito na sacola.
Percebi, então, que não havia sido só o saquinho de farofa que havia ganhado a liberdade por aquele rombo. A gordura do frango também havia escapado e se espalhara por toda a minha calça. Imaginem, gordura quente misturada a plástico derretido em cima de uma calça de tropical inglês....
Uma mancha enorme se alojou na frente das calças impedido-me de usá-las novamente.
Perdi as calças do casório, só restaram o paletó e a camisa. Grande prejuízo o frango me proporcionou.
Ah! O emprego também foi por água abaixo!