23.7.09

OUTRAS
MEMORIAS
PIREPAQUIANAS
Quando somos abruptamente assaltados por um mal súbito e vai parar internado em um nosocômio, tive a certeza ao vivo e a cores recentemente, o amor próprio, a vergonha, a pudicícia vão para o vinagre.
Você, ao retomar a consciência em cima de uma cama hospitalar, verá que todos os valores alimentados por anos, ficaram totalmente invalidados.
Eu acordei na manhã do dia 19 pp, sem minhas roupas, trajando apenas um camisolão que, apesar de poder ser fechado na parte traseira, fora mantido aberto. Lembrei-me do ocorrido na tarde do dia anterior e justifiquei meu estado em virtude da incontinência urinaria de que fui acometido enquanto aguardava os cuidados médicos sentado em um banco incomodo do PS.
Naquele inusitado uniforme fui mantido por uma semana inteirinha. Banhos eu tomava, inicialmente, na própria cama, dados por uma das enfermeiras. Aqui devo abrir um parêntese para homenagear os “anjos hospitalares”, as enfermeiras. Elas cuidam de você com o mesmo carinho e afeto que uma mãe cuida de seus filhos.
Foram elas as causadoras da minha perda da vergonha, da queda do meu amor próprio quando me despiram e me banharam e quando me trocavam as fraldas geriátricas.
Faziam tudo com tanta naturalidade que depois da surpresa do primeiro dia, passei a aceitar os procedimentos com naturalidade.
Quem, como eu, fica internado na enfermaria de um hospital publico, rodeado por mais sete outros internados, não pode se queixar da falta distração. Os companheiros de infortúnio, por si só, podem ser motivo de muitas risadas.
Eu, por exemplo, quando me dei conta da situação, percebi que estava rodeado por pessoas bastante interessantes. Nas camas da frente estavam quatro doentes, contando-os da minha esquerda para a direita, tínhamos um com uma figura bastante acaipirada (não quero dizer boba), fala mansa, modos calmos, mas de grande perspicácia. Em virtude do diabetes, estava cego de uma vista e a caminho de perder a outra. Resignado com sua situação, estava chateado por ter sido apartado de sua família e da criação (criava galinhas) sem ter uma só réstia de esperança para a cura.
Na minha frente, um senhorzinho de cabeça encarquilhada, que depois fiquei sabendo ser violeiro e animador de quermesses e rodeios. Mesmo com a glicemia em alta, era um faminto contumaz, devorava tudo que lhe era servido e, ainda não satisfeito, percorria as bandejas dos demais companheiros de quarto para recolher pães e frutas dispensadas, guardando-as para as horas de intervalo entre as refeições.
Os dois outros internados à minha frente, eram pacientes renais que eram submetidos, todas as notes a sessões de diálise. Dormiam muito durante o dia.
Depois que o caipirão e o violeiro tiveram alta, quase na freta final de minha estadia, foram internados um rapaz negro de muita solicitude, que ali estava para exames pós-cirurgia de extração de um carcinoma bem sucedida nove anos atrás e que agora, parece, tentava retornar.
Outro que foi internado em nosso mundinho foi um senhor que ali estava para avaliação de uma operação cardíaca que, parece, estava querendo descambar. Este senhor, já no primeiro dia, logo na chegada, devidamente acompanhado por sua esposa, ao desfazer a mala, retirou dela um par de chinelos um tanto espalhafatosos na cor verde, olhou frontalmente para mulher e disse: você está querendo que eu use esses chinelos? Se eu sair com eles aqui no corredor, vou ser cantado por médicos, enfermeiros e todos os pacientes. Tô fora!”
Assim, olhando e tentando analisar meus companheiros, os dias passavam mais rápidos e eu me distraia.
Os companheiros deitados do meu lado deverão ser descritos com outras memórias.