24.11.09
10.11.09
2.11.09
Embora já tivesse lido aqueles reclames por mais de uma centena de vezes, ele continuava com o olhar fixo nas mensagens e lia “veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado.
No entanto acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o RUM CREOSOTADO”, “Prevenir acidentes é dever de todos”, Para a saúde da mulher, Regulador Xavier”, “um cruzeiro, dois cruzeiros, papai vai dar pra mim! Vou guardar o meu dinheiro no Kanguru Mirim”...
Lia seguidamente esses reclames e permanecia alheio a tudo mais que se passava à sua volta.
Não via nem ouvia o burburinho dos jovens que falavam e brincavam enquanto o bonde seguia sua viagem em busca do ponto final... Foi então que na sua frente surgiu uma linda e loira mulher que com um sorriso tímido lhe perguntava o destino daquele bonde.
Ele, impressionado com a beleza alva da pele daquela deusa, impressionado com a figura marcante daquela mulher imaginou-se alguns anos mais novo e ousado para soltar um pequeno galanteio e, sem conseguir travar sua língua, num repente audacioso, balbuciou num sussurro quase sem voz “desejo”...
Ela, sentando-se no lugar vago ao seu lado, deixou transparecer por entre os lábios um sorriso que ele, calcado nos seus conhecimentos práticos, entendeu como um consentimento silente aos seus arroubos, e num só fôlego murmurou “desejo sim, de ter você a meu lado, pelo menos até o ponto final desta viagem”.
Mais uma vez aquele sorriso sincero, enigmático e recatado surgiu em seu semblante. Nada disse, mas, também nada fez e nem mudou de lugar, embora outros lugares já estivessem vagos.
Ele não obtendo uma resposta verbal, mas decifrando com sua experiência de anos de batalha, entendeu que uma pequena fresta se abrira na porta de seu destino, coisa que nem ele acreditava ser possível.
Porém, como sempre tivera confiança em si próprio, pressentindo aquela pequena, mas consistente possibilidade voltou a olhar fixamente na moça sentada a seu lado, e pronunciou em voz sussurrante:
- Desejo, sim, desejo que você continue esta viagem sentadinha a meu lado!
Ela, maneando a cabeça para o seu lado, disse-lhe, numa voz terna e sensual:
- Muita gentileza de sua parte... Aliás, parece que lhe conheço há mais tempo, só não me lembro de que lugar...
- Deve ter sido do deserto - Deserto? Como assim?
- Por que há muitos anos eu vivo num deserto imaginário, sem contato com ninguém, em eterna solidão. Então, sem mais nem menos, uma linda mulher sorri para mim, senta-se ao meu lado e diz que me conhece?
Compreendi então, que estava saindo do deserto e voltando à vida...
O velho sorriu e, no mesmo instante, deixou cair a máscara sisuda que há muito se instalara em sua cara, iluminando, de forma instantânea, seu semblante, até então fechado e sombrio.
Ela, sem duvidas, percebeu a transformação e demonstrou, nitidamente, ter gostado do que via.
Também, como se milhares de ouvidos pudessem ouvir o que iria dizer, aproximou seu rosto do rosto do velho e murmurou:
-Tenha certeza que irei até o ponto final...
Ao fazer a afirmação, de imediato, acomodou-se no banco, fazendo despertar naquele senhor, o desejo de continuar sonhando e puder ver a beleza das coisas, das pessoas, da natureza e das suas nuances.
Ele sentiu-se em plena juventude, como se fosse o seu primeiro amor, tal era a sensação que ela passava, seu coração acelerava, adrenalina alcançava o mais alto vôo de desejo.
Horas pensava em se tocar, horas pensava em gritar bem alto, para que o motorista pudesse ouvi o seu pedido, queria, queria muito que aquele
Bonde não parasse, pois sendo assim, ele ganharia tempo para a sua conquista enrustida, porém com um único objetivo deixá-la florescer e desabrochar como acontece com as flores na primavera.
As horas corriam como se tivesse horário marcado com o desencontro. A sua angústia aumentava e sem querer timidamente segurou as suas mãos e pediu-lhe que aceitasse um café na sua casa e que logo a levaria ao seu destino.
A jovem desconhecida agradecida e muito feliz aceitou o convite daquele senhor, que parecia tão só e sincero, como nunca havia encontrado alguém parecido.
Ela com suas decepções, seus desamores estava indo em busca de novos horizontes para aliviar as dores que lhe acometia, queria encontrar a sua felicidade em outros lugares. Chegando ao ponto final, ele desceu os degraus do Bonde e se posicionou como um cavalheiro dando-lhe as mãos para que ela descesse com segurança.
Apanhou os seus pertences e a fez acompanhá-lo lentamente para que o tempo se se apieda dele dando-lhe oportunidade de continuar aquela conquista, que até então não estava descartada.
Chegando a casa acomodou a bagagem, pegou-a pelo braço delicadamente e apresentou-lhe a sua humilde moradia, simples no mobiliário, mas de uma limpeza incontestável.
Pediu-lhe que acompanhasse até a cozinha, pois faria o “café” que havia lhe prometido.
Logo em seguida sem muito jeito ofereceu-lhe o banheiro para que ela pudesse se banhar, o calor insuportável a fez aceitar.
De repente ela desponta banhada, de cabelos lavados, cheirosa como a primavera expelindo sensualidade pelos os poros, ele observava-a, e se deleitava, só em pensar possuí-la.
Pediu-lhe, licença e foi ao seu banho costumeiro, porém diferente, tinha que haver algo que também a despertasse fez a barba minuciosamente, aparou os pelos dos órgãos penistencios e se fez perfumado, colocou uma camiseta verde claro nas cores da esperança daquele sonho vir a ser concretizado.
No silêncio do seu banho, se perguntava o tempo todo, por onde começar? E se começar? E se ela me rejeitar, a sua cabeça fervia como se fosse um turbilhão, depois de um banho frio voltava mais aliviado, é claro!
Dando continuidade a sua conversa... Indagou-lhe, sobre os seus familiares, ela sem muito que falar baixou a cabeça e respondeu-lhe não os tenho, só sozinha que nem o senhor sou professora e vim para cá em busca de trabalho e fugindo de uns problemas que me afligiam. Ficarei numa pensão.
O senhor conhece alguma por aqui que possa me indicar. Sim! Mas já era noite e ele ainda não havia concluído o seu desejo da conquista, ansioso que as horas passassem rápido para que não houvesse tempo de procurar mais nada.
Veja que contraste, no Bonde pedia que a viagem não acabasse nunca e ali diante daquele sonho pedia que as horas passassem correndo para ele prender aquela jovem ali tão perto dos seus braços. Preparou algo, para comerem, ela sentia-se perdida presenciando aquele ritual de um dono de casa exemplar, coisa que para ela era alheio, mal sabia preparar um café.
Ele manso, educado, simples no falar e no agir, perguntava-lhe o que gostaria de degustar? Ela na sua modéstia de menina delicada e carente ficou a fitá-lo com carinho, a sua vontade era lhe dá um beijo de agradecimento por tamanha gentileza e atenção. Sem muitas delongas, pediu-lhe licença e beijou a face daquele homem sisudo e ao mesmo tempo tão delicado e amoroso, dizendo-lhe como é belo o senhor.
Obrigada pela a sua amizade e bondade, já sabendo ela da sua segunda intenção, mesmo porque ninguém faz nada de graça sem que tenha um retorno e que retorno, vermelhinho como tomate seco ele ficou, tamanha a sua emoção.
Após o jantar ele preparou o quarto e a convidou para que passasse aquela noite ali com ele, pois se sentia também muito sozinho. Sem pensar, e pelo cansaço da viagem aceitou. Só que no seu ítimo já passava a mesma sensação de excitação por aquele jovem há mais tempo e a carência que se fazia presente.
Já era tarde, falaram de tudo e foi chegado o momento cruciante do recolhimento tanto para um como para o outro, ambos naquele instante queria muito estar nos braços um do outro. Boa noite, boa noite, durma bem, você também.
No silêncio dos seus quartos, só ouvia o rolar pra lá rolar pra cá e eles inquietos não conseguiam conciliar o sono. Ela levantou-se e dirigiu-se ao quarto dele, bateu na porta lentamente e perguntou-lhe? Já dormiu? Não! E você está sem sono? Sim! Nessa altura seu coração não batia mais, estava disparado, como se fosse uma competição desenfreada, vence o melhor e naquele momento ele desejava o melhor para ele e também queria levá-la aos céus com os seus beijos e preliminares se possível fosse, diante do envolvimento e do fogo que lhe abrasava, restava-lhe apenas o controle e esse, estava fugindo do seu alcance. Dizia ele quase sussurrando, vamos pode entrar, já mais solto, pediu-lhe que sentasse a sua cama e com muito cuidado começou a pegar nos seus cabelos com mãos tremulas querendo acariciá-los passando-lhe somente à vontade de possuí-la.
Quando ela se voltou para ele os seus lábios já buscavam a sua boca num beijo ardente no mais puro e profundo encontro do prazer, seus corpos tremiam de emoção, a loucura da entrega era fatal, sem preliminares os dois ardiam em febre do consumismo do amor, tinham sede de unir os seus líquidos num desejo , se sentirem amados e não mais sozinhos na vida.
26.10.09
22.10.09
PESCARIA MAL SUCEDIDA
Final dos anos 40, a molecagem era minha principal atividade. Era praticada na Rua Augusta onde eu morava e nas imediações, diga-se de passagem, que eram definidas muito além de minha residência.
Na Augusta, mesmo diante das traquinagens, eu tinha a mão do velho Ministrinho, outrora grande craque do Palmeiras e da Itália, agora simples sapateiro, alisando minha cabeça de moleque.
Um dia, estava eu na casa do amigo-irmão Zilando, na Rua Marques de Paranaguá, quando surgiu a idéia de promover uma pescaria. Onde? No laguinho que ficava na Praça Buenos Aires (hoje Parque Buenos Aires) nas imediações da Avenida Angélica e da Rua Maranhão, próximo do Estádio Municipal do Pacaembu.
As carpas coloridas que lá nadavam não seriam nossos alvos, nosso alvo de pesca seria as centenas de alevinos que por ali nadavam. Queríamos obter alguns exemplares vivos para tentar completar sua criação em casa.
Idéia aprovada nos armamos com latas de óleo devidamente furadas que substituiriam as peneiras e de vidros para acondicionamento dos exemplares pescados e saímos em expedição até o local de nossa pescaria.
Lá chegando, assuntamos as redondezas tentando localizar o vigilante da praça sem encontrá-lo ficamos mais tranquilos e partimos para nossa missão.
Estávamos em plena atividade, alguns alevinos já nadavam nos vidros quando um longo e estridente apito foi ouvido. Esse apito foi seguido de um brado rancoroso que dizia “espara lá moleques, que eu já os pego”.
Que esperar que nada, saímos em desabalada carreira, atravessamos a Avenida Angélica, alcançamos a Rua Itambé, entramos por trás do Mackenzie, e alcançamos a parte florestal daquele instituto de ensino onde, claro, tínhamos nossa casa em cima de uma arvore.
Começamos a subir na arvore, mas os deuses do dia não eram nossos aliados.
O caseiro do Mackenzie, que já havia nos prometido uma lição, nos surpreendeu munido com uma espingarda e dando tiros de sal.
Não me acertou nenhum tiro, nem o Zilando foi ferido, mas o susto dobrado quase nos fez sujar as calças (na época ainda curtas).
Correndo ainda, saímos pela “passagem secreta” para a Rua da Consolação e só paramos de correr, esbaforidos e muito suados, dentro da casa do Zilando.
Os peixes e todos os apetrechos? Foram jogados de lado assim que começamos nossa fuga.
Outra tentativa?
Não, decididamente eramos moleques, mas não éramos burros.
12.10.09
UMA NOITE MEMORÁVEL
A noite havia sido excelente.
Eles tinham se encontrado por volta de 20:00 h, depois de muito bem produzidos, roupas novas, ele até tinha brincado consigo mesmo dizendo-se vestido com roupas de domingo. Ela, por sua vez, depois de ter feito as unhas das mãos e dos pés, de ter-se hidratado com o creme de sua preferência, vestira um terninho que lhe caia muito bem. Ambos estavam de bem com a vida. Depois dos beijinhos de recepção, foram em direção ao centro. Guardaram o carro em um estacionamento próximo do teatro e, decididos, foram em busca do entretenimento que haviam escolhido para iniciar a noite, entraram e acomodaram-se nas poltronas que lhes haviam sido designadas e aguardaram o inicio do espetáculo. Haviam escolhido uma comedia e, de fato, riram bastante com as situações cômicas que a comédia lhes apresentara. Saíram do teatro leves e muito mais bem humorados. Como planejado, foram em direção ao restaurante escolhido. Lá chegando, foram encaminhados pelo Maitre à mesa reservada com antecedência. Aceitaram a taça do champanhe que lhes foi oferecida pelo garçom e iniciaram a consulta do Cardápio para escolherem o prato que melhor lhes aprouvesse. Ele, amante de pratos bem temperados optou por um “Filet au Poivre” – para atiçar o apetite dos leitores, lembro que esse prato é composto por um medalhão de filé mignom que coberto por todos os lados com pimenta do reino em grãos amassados, é frito em frigideira com uma mistura de manteiga e azeite, depois de frito, o filé é coberto por um molho à base de conhaque e creme de leite e acompanhado por uma salada verde - recomendando, inclusive que o filé viesse malpassado. Ela de paladar mais delicado preferiu optar por escalopinhos de filé ao molho madeira acompanhados por um arroz com passas. A bebida ao jantar foi vinho e o escolhido foi um Santa Helena – Cabernet Sauvignon safra 2006. A sobremesa foi sorvete de creme com cobertura de chocolate meio amargo quente. Depois de degustarem um cafezinho e pagar a conta , saíram em busca de outras aventuras. Embarcaram no carro que lhes trouxe o manobrista e, sem mais delongas, partiram em busca de um motel famoso e muito luxuoso, ali escolheram uma suíte e entraram. Beijos iniciais, carinhos mais ousados, roupas quase que arrancadas e, enfim, abraçados se deitam. Foi aí que as coisas começaram a acontecer fora das previsões. A pimenta do reino deu sinais de não ter sido muito bem aceita pelo estomago dele. A acidez surgiu e ele acusou de imediato. Não era nenhum caso demasiadamente preocupante, mas aquela azia fazendo turismo de elevador no seu esôfago não permitia a manutenção de um clima frenético e, muito menos amoroso. Ele buscou ajuda, ao telefone, solicitou um sal efervescente e uma água tônica que de imediato foram servidos e por ele tomados. Deitados, aguardando a melhora dele, ficaram os dois abraçadinhos a conversar. A melhora foi se acentuando e ele se animando. Parece que agora não mais teriam atrapalhados os planos eróticos. Ele foi se animando, sussurrando palavras amorosas, sugerindo carinhos mais ousados e, de repente, olhou para ela que aninhada em seus braços, permanecia calada e de olhos fechados. Não querendo acreditar no que viu, ele, com voz mais áspera pergunta: -Você está dormindo? Ela meia assustada e ainda sonolenta responde de pronto: -Não amor, estava apenas descansando os olhos! Pronto, novamente os ânimos se arrefeceram. Ele analisando a situação e a resposta recebida começa a soltar uma risadinha que, rapidamente, se transforma em sonora gargalhada. Ela também, percebendo o ridículo de sua resposta, não teve dúvidas, começou também a gargalhar. Nesse clima, nada mais havia de ficar romântico ou sensual. Tudo que estava se preparando para uma noite de muito clímax caiu por terra, ficando sem condições de se reerguer. O remédio, depois de serenadas as gargalhadas, foi virar para o lado e dormir o sono dos justos.
De manhã, se nada viesse a atrapalhar, eles correriam atrás do prejuízo.
6.10.09



